As camisetas do Sport Club Guarany, de Cruz Alta

As camisetas que foram utilizadas pelo Guarany na década de 1960.

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Com ilustrações de Evaldo Júnior (www.erojkit.com)

A história do Guarany (e todo o futebol cruz-altense), infelizmente, é feita de longas interrupções, alternadas a alguns momentos gloriosos. Fundado em 20 de setembro de 1913, desde muito cedo já era conhecido pela curiosa alcunha de “Jequitibá da Serra”. A primeira rivalidade importante do clube e que, para muitos, nunca foi superada, se deu com o Clube Arranca, fundado no ano seguinte, com quem chegou a romper relações por cinco anos após sofrer uma acachapante goleada de 5 a 0 em 1916. Após o término da briga, imposto pela Federação, o Guarany entrou em uma das melhores fases de sua história conquistando seis vezes o campeonato municipal entre 1921 e 1927. Nesse período, o clube chegou a disputar as finais do Estadual por duas vezes, em 1922 e em 1925. No final de 1928, Guarany e Arranca se encontraram pela última vez. Em 1930, ambos fechariam o departamento de futebol e seguiriam caminhos diferentes: enquanto o Guarany se manteria essencialmente para a prática do futebol (apesar dos subsequentes licenciamentos), o Arranca cresceu como clube social, o que o é até hoje.

O Guarany retoma as atividades apenas em 1942. No período em que esteve fora, dois novos clubes foram fundados, cresceram e se estabeleceram como novas forças no futebol da região, tornando-se os novos rivais do Guarany: o Grêmio Rio-Grandense Futebol Clube (1929) e o Esporte Clube Nacional (1941). Quando retorna ao futebol, em 1942, o Guarany vende alguns lotes da propriedade onde estava localizado seu estádio, investindo na reforma da Taba Índia, que passa a ser considerada “o estádio mais bonito da cidade”. Nesta segunda fase de sua existência, o Guarany monta um grande time, que seria por duas vezes consecutivas campeão da 2ª divisão estadual de profissionais. Em 1954, após acirrada disputa com o Nacional, o Guarany vence os dois jogos da final para conquistar a vaga nas finais do estadual e tornar-se campeão regional e, pela décima vez, campeão citadino. As finais do estadual foram disputadas em Porto Alegre, apenas no começo do ano seguinte. Guarany e Atlântico de Erechim terminaram empatados em pontos, num pentagonal que tinha, ainda, Flamengo de Caxias do Sul, Esportivo e Estrela. Um jogo extra foi realizado para definir o campeão, em 16 de fevereiro, mas não saiu do zero. Novo jogo desempate seria realizado dois dias depois e, outra vez, terminou com placar inalterado. Apenas na prorrogação do segundo jogo, o Guarany marcaria e se tornaria campeão estadual pela primeira vez. O citadino de 1955 seria mais tranquilo que no ano anterior, com o Guarany sendo campeão invicto perdendo um único ponto para o Rio-Grandense. O estadual mudou de formato e passou a ser disputado em jogos de ida-e-volta. Primeiramente, o Guarany eliminou o Gabrielense após quatro jogos. Nas semifinais, derrotou o 14 de Julho de Passo Fundo. O adversário na final foi o Lajeadense, que se viu derrotado por duas vezes (2 a 0 na Taba e 4 a 3 em Lajeado). O Guarany era bicampeão estadual. Em 1956, o clube chegaria novamente às finais, mas seria derrotado pelo Glória de Carazinho. No ano seguinte, perderia para o Nacional a hegemonia da cidade. O Guarany ainda foi campeão citadino em 1962, 1963 e 1966, mas o futebol cruz-altense foi enfraquecendo ao longo da década, o que culminou com novo licenciamento do clube após a temporada de 1966.

Quanto aos uniformes utilizados pelo Jequitibá da Serra na década de 1960, podemos dizer que o clube utilizou basicamente três modelos. O mais utilizado foi um modelo com listras finas e grossas, semelhante a um utilizado pelo Juventude na mesma época, que foi inaugurado na temporada de 1962 e que seguia sendo o prioritariamente utilizado ainda em 1966. Em 1961 e, alternativamente, ao longo da década, também foram utilizados uniformes mais clássicos, com gola tipo polo, em azul e em branco.

Anos 1960 SC Guarany (listrada)

No começo de 1967, o Guarany chega a iniciar uma pré-temporada visando o campeonato daquele ano, mas, em abril, toma a decisão de se licenciar. Dois anos depois, em 1969, mais uma vez tenta voltar e joga algumas partidas contra equipes amadoras da região, mas acaba se mantendo inativo. Depois, em 1971, é disputado um campeonato citadino (o último de Cruz Alta), em homenagem aos 150 anos do município. O Guarany não teve interesse em reativar o futebol profissional, mas foi representado no campeonato pela equipe do Vila Brenner FC, que havia sido campeã amadora da temporada anterior. O título acabou ficando com o Nacional.

Em 1972, o Rio Grande do Sul vivia o auge das fusões, que ocorriam por todo o estado, na tentativa de manter o futebol profissional, e Cruz Alta não ficou de fora: Guarany e Nacional se uniram na Associação Cruz Alta de Futebol, a ACAFOL. Como a maioria das fusões, a ACAFOL não foi bem sucedida e logo surgiam críticas de que uma das partes havia agido em benefício próprio. No caso de Cruz Alta, por exemplo, o Morro dos Ventos Uivantes acabou sendo eleito como campo principal, recebendo investimentos da fusão. Enquanto isso, o patrimônio do Guarany era deteriorado, dificultando cada vez mais o retorno da equipe. Já em 1974 a fusão foi desfeita.

Apenas na virada da década, o Guarany começa a se mobilizar novamente, iniciando obras de recuperação da Taba Índia. O festival de inauguração do novo estádio ocorreu no começo de 1985 e marcou a retomada do futebol profissional no clube. A partir daí, a ascensão da equipe foi meteórica: logo em 1985, venceu a terceira divisão; e, dois anos depois, em 1987, foi campeão da divisão de acesso, retornando ao convívio com os grandes clubes do estado.

Na retomada do futebol profissional, as camisetas titular e reserva do clube são de modelos bem diferentes entre eles. A camiseta listrada, principalmente, é antiquada para a época e, talvez, tenha sido reaproveitada de alguma tentativa de reativação na década anterior. O patrocínio é da Massey Ferguson, o primeiro a ser estampado na camiseta do time índio.

Ainda no final da temporada de 1985, o Guarany passa a ter novos modelos de camisetas, uma azul e uma listrada, ambas com golas do tipo polo. Essas camisetas seriam bastante longevas, sendo usadas até a temporada de 1987. Em 1987, no entanto, ambas as camisetas receberiam, pela primeira vez, o patrocínio do agrotóxico Scepter, que se manteria até meados dos anos 1990. Ainda em 1987, uma camiseta branca é adicionada ao catálogo de camisetas do Guarany, já com o patrocínio.

1987 SC Guarany (branco)
1987 (reserva)

A temporada de 1988 acabou não sendo das melhores. Ao final do ano, o Guarany voltaria a segunda divisão. Teve, ainda, uma participação na terceira divisão do Campeonato Brasileiro. Num quadrangular com equipes de Santa Catarina e Paraná, o Guarany sofreu cinco derrotas e somou apenas um ponto. As camisetas azul e branca passam a ter cor única, incluindo gola e barra das mangas. O patrocínio do Scepter também deixa de ser colorido. Já a camiseta listrada de 1988 é diferente das suas contemporâneas e tem gola em V.

1988 SC Guarany (listrada)
1988 (alternativa)

Em 1989, o Guarany volta a fazer uma boa campanha na Divisão de Acesso e, embora tenha perdido o título para o Ypiranga, na última rodada do octogonal final, retornou à elite como vice-campeão. A camiseta listrada da temporada é bem semelhante à anterior, mudando apenas a disposição das listras. A branca, por outro lado, muda bastante e o patrocínio volta a ser colorido. Ainda necessitando de confirmação, acredito que o Guarany usou, ainda em 1989, uma terceira camiseta, de um azul mais escuro.

1989 SC Guarany (listrada)
1989 (titular)

De volta à primeira divisão, o clube faz, agora, uma boa campanha e fica perto de se classificar para o quadrangular final. Uma derrota para o Pelotas, na última rodada, entretanto, deixa o Guarany com a sétima colocação entre os 14 participantes. Pude identificar apenas a camiseta listrada da temporada, que difere das anteriores, principalmente, por ter a gola azul.

1990 SC Guarany (listrada)
1990 (titular)

O Guarany começou a década consolidado na primeira divisão e com a promessa de viver seus melhores anos. O futuro, no entanto, mostraria o oposto. Em 1991, o clube acabaria fazendo a terceira pior campanha entre os 20 clubes da elite, com 11 derrotas e apenas três vitórias em 19 partidas. Foi salvo por não haver rebaixamento automático.

No ano seguinte, na maior negociação de sua história, vendeu o atacante Catê para o São Paulo. Em troca, recebeu 30 mil dólares e nove jogadores da base do clube paulista para serem experimentados na Taba. Além disso, o time de 1992 começaria por um grande nome: Mazarópi, goleiro campeão do mundo pelo Grêmio quase uma década antes e, então, atual campeão gaúcho pelo clube da capital. Acabou dando tudo errado. Mazarópi teve péssimas atuações e saiu em meio a temporada sem deixar saudades na cidade. A campanha, embora não tão ruim quanto a do ano anterior, continuou sendo péssima.

Em 1993, o Guarany teve uma de suas melhores campanhas no Gauchão, chegando, entre 24 equipes, até o octogonal final da competição, finalizando o campeonato em sexto. Aquela acabaria sendo a última grande temporada do futebol profissional do clube. Em 1994, depois de longas 44 rodadas, o Guarany fez segunda pior campanha da competição, somando apenas 24 pontos. Com isso, foi alocado na Série B do ano seguinte. Na série B, o clube foi muito mal, sendo obrigado a disputar um “torneio da morte”, que decidiria os rebaixados. O Guarany acabou saindo vencedor do torneio, o que de nada valeu. Na temporada seguinte foi anunciado o licenciamento do clube das competições profissionais.

O retorno do Guarany às atividades ocorreu apenas em 1998, com uma vergonhosa campanha de 5 derrotas e 1 empate em seis partidas na Segundona. Para 1999, a FGF recriou a terceira divisão e o Guarany acabou em terceiro lugar, uma boa, porém insuficiente temporada, já que apenas os dois primeiros tinham direito ao acesso. No ano seguinte, mais uma vez o Guarany chegou em terceiro, dessa vez, perdendo o acesso no saldo de gols. Seria a última boa campanha do clube, que iria muito mal em 2001 e se despediria mais uma vez do futebol profissional.

As camisetas do Guarany de 1991 são bem parecidas com as dos anos anteriores, nos modelos listrado e branco, com patrocínio da Scepter. Ao longo da temporada, no entanto, é usada em alguns jogos uma camiseta que lembra as da década de 1960, com uma faixa horizontal azul e sem patrocínio.

1991 SC Guarany (branca 2)
1991 (alternativa)

Entre 1992 e 1993, as camisetas foram fabricadas pela catarinense Replay. O azul fica um pouco mais claro e acinzentado.

Nas temporadas de 1994 e 1995, o Guarany usou camisetas com modelos padronizados da marca alemã Reusch. Foram os últimos anos em que o patrocínio principal do clube foi o Scepter.

Quando retorna em 1998, o patrocínio frontal das camisetas passa a ser Unimed. Nas costas das camisetas já estava o patrocínio da Unicruz, que permaneceria no clube até a temporada final em 2001. Em 1999, é usada uma camiseta com faixa diagonal. Nos últimos dois anos, as camisetas tem cor única, a titular azul e a reserva branca.

Referência: A melhor referência sobre a história do Guarany é o livro Esporte Clube Guarany: Uma História de 94 Anos, de Lino Ceretta, torcedor e ex-goleiro do clube. É um trabalho muito dedicado e bonito. Agradeço igualmente aos pesquisadores Izan Muller e Lucas Scherer por compartilharem uma cópia deste trabalho comigo.

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